A opinião de ...

Vivências

Face aos acontecimentos que ultimamente têm marcado o nosso país, não tenho qualquer dúvida de que, se começasse por opinar sobre a notável eleição do novo Presidente da República, em desfavor da tragédia que nos vem assolando, decerto que, por isso, o iria magoar.
Assim, vou começar por, primeiramente, lamentar as consequências da enorme tragédia que, desde finais de janeiro, fustigou este país, causando o sofrimento, a angústia, a privação e a desolação a milhares de portugueses, (mas nunca a sua perda da esperança). Em segundo lugar, manifestar a minha tristeza pelos mortos que aquela provocou, não esquecendo os dois profissionais que deram a sua vida no cumprimento do dever. Depois, toda a movimentação em que o aparelho do Estado conseguiu reunir toda a força dos profissionais, (civis e militares), da GNR e PSP, das autarquias, e dos técnicos para acudirem a esta situação. Finalmente, não posso deixar de admirar e respeitar a resiliência de quem tudo perdeu e que, em muitas circunstâncias, teve de dormir à chuva e ao frio, sem luz, sem água e sem comunicações.
A força do vento arrancou e desmembrou árvores que, caindo, danificaram carros, muros e casas (que também destelhou), assim como destelhou igrejas e pavilhões de várias empresas (algumas completamente destruídas), fez cair postes de eletricidade e cobriu o povo com um manto de escuridão.
Se o vento foi um implacável destruidor, a água não o foi menos: torrentes de água caindo sobre a terra inundaram campos, desafiaram barragens, fragilizaram casas, provocaram desmoronamentos, fizeram transbordar rios e ribeiras, cobriram ruas e praças, isolaram freguesias, assolaram monumentos, destruíram estradas e caminhos, e originaram o corte de parte da autoestrada mais movimentada do país.
O mar, enfurecido, oferecendo o desolador espetáculo das ondas de vários metros, fez tremer toda a costa (de norte a sul), galgou paredões e danificou esplanadas.
Por todo o lado se notou uma onda de solidariedade que, de algum modo, suavizou a dor dos que tanto perderam e sofreram.
A todos o Presidente da República, o Governo e os candidatos presidenciais levaram uma palavra de conforto e de esperança.
Quanto às eleições, como é sabido, só uma vez, (há quarenta anos), teve lugar em Portugal uma segunda volta nas eleições presidenciais. Tal repetiu-se no passado dia oito de fevereiro; e, face aos adiamentos pela tragédia que se abateu sobre o país, no passado dia quinze.
De notar o espírito cívico de milhões de votantes que, contra todas as adversidades, motivadas pela grave intempérie, não deixaram de acorrer às urnas.
Porque, na primeira volta, o número de candidatos levou a uma grande dispersão de votos, também é verdade que cinco deles arrecadaram a maioria, enquanto os restantes ficaram aquém das suas espectativas.
Creio, por isso, que, durante a campanha, a mensagem de alguns candidatos ou não foi completamente esclarecedora ou não devidamente compreendida.
Mesmo assim, a par das arruadas e do barulho que lhes é peculiar, a par dos abraços, dos beijos e da exaltação (perante algum fator invulgar durante a campanha), não faltou o momento da reflexão, pelo que, no final, resultou que apenas dois candidatos tivessem obtido votos suficientes para a segunda volta.
Tal como aconteceu, a maior parte dos eleitores compreendeu o sentido e o valor da continuidade, da estabilidade e da moderação, atendendo igualmente ao porte, ao sentido de Estado, à serenidade, ao compromisso, à independência e à confiança do candidato ganhador – o que fez com que o mesmo fosse eleito com uma percentagem esmagadora, angariando mais votos do que qualquer Presidente da República que o precedeu.
Por isso, venho aqui dar-lhe os meus parabéns, e desejar-lhe que, no mandato sobre o qual devotadamente tanto se empenhou em esclarecer-nos, não abrande o fulgor, a dedicação e a persistência que revelou serem-lhe inerentes.

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