A opinião de ...

O país não é Lisboa nem o resto é só paisagem

Se houve coisa que os recentes desastres ambientais colocaram a nu é o excessivo centralismo que tem condicionado o desenvolvimento do país e a ausência de uma coordenação eficaz de serviços ao nível regional.
Cada vez mais vozes se ouvem a alertar que o Rei vai nú.
Mas sempre que se fala em Regionalização, surgem sempre os arautos da desgraça e os Velhos do Restelo a atirar para o ar o espetro do “tachismo” e do “despesismo”.
A verdade é que, a cada dia que passa, a evidência comprova-se com a realidade.
As calamidades que assolam regularmente o país deixam a nu a falta de uma coordenação política e organizacional intermédia, especialmente notada desde a extinção dos Governos Civis, que eram o braço do Governo pelo território.
Até o insuspeito Pedro Duarte, novo presidente da Câmara do Porto (insuspeito por ser do PSD, precisamente o partido que tem combatido a regionalização), dava a mão à palmatória, assim como, antes dele, fez Rui Rio, que começou por defender o não à regionalização e é hoje um confesso defensor das regiões.
Numa entrevista à Agência Lusa, e citada num texto de opinião no Público por Ana Sá Lopes, Pedro Duarte dizia, por estes dias, que os anti-regionalistas “vivem em Lisboa e não permitem que a questão seja discutida”. “Se acham que é igual, que o país não precisa, certamente para eles é indiferente viver em Lisboa ou fora de Lisboa. Vão viver para Leiria ou vão, já agora, para Freixo de Espada à Cinta ou vão para a região do Alqueva. Aí podem opinar de forma diferente sobre a regionalização.”
O presidente da Câmara do Porto disse que, quando passar a crise, “os decisores voltam todos para Lisboa, os opinadores do regime voltam todos para Lisboa — de onde, aliás, nunca saíram, por sinal — e nos estúdios de televisão vão todos opinar que o país é demasiado pequeno (…) porque confundem o país com Lisboa”.
Ora, o país não é só o que se avista do Terreiro do Paço.
A Suíça, por exemplo, é mais pequena territorialmente do que Portugal e tem 26 regiões. E nem por isso é menos desenvolvida, bem pelo contrário.
Em Portugal, faz falta um modelo de regionalização que, por um lado, ponha um ponto final na pouca vergonha que são as Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional, geridas não se sabe muito bem por quem e sem força política, pois os seus governantes não têm a força expressa do voto popular, resultando, antes, de arranjinhos partidários. Eliminem-se as CCDRs e avance-se para as regiões.
Também não pode haver uma grande região Norte, pois no interior não se vive como no litoral, seja em rendimentos ou investimentos.
É preciso haver uma discussão séria sobre o assunto porque a próxima tragédia está ao virar da esquina e já chega de anos de fraco desenvolvimento destas regiões, que constantemente veem os seus recursos desviados para o litoral.
Dá-se o caso de muitos dos apoios que o litoral recebe chegarem da Europa precisamente pelos indicadores do interior.
Regionalize-se. E quanto mais depressa, melhor.

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