A opinião de ...

Um país frágil, mas solidário

Tal como em 26 de Novembro de 1967, em Lisboa, a tempestade Kristin abateu-se agora sobre a zona centro do nosso país, no dia 28 de Janeiro de 2026, sem dó nem piedade. Provocou muitos estragos e mostrou um país algo mais preparado, mas quase impotente não só perante as forças da natureza como também perante o caos organizativo e a impreparação dos meios humanos e materiais que já estão alocados à prevenção e ajuda nas tragédias.
O Governo só reagiu ao segundo dia. A protecção civil revelou-se sem visão estratégica e as forças armadas só foram chamadas ao oitavo dia, quando os fuzileiros são o corpo que mais e melhores meios têm para atuar na água. Pelo meio, uma Ministra desorientada pediu a demissão. Ao menos ela, confessou que estava a fazer um favor ao país. Jorge Coelho, em 2001, fez cena igual em invocação da assunção hipócrita de responsabilidades, deixando o então Primeiro-Ministro ao abandono, numa tragédia de maiores proporções em vidas humanas.
Vinte e cinco anos depois e mais quatro grandes tragédias (queda da Ponte de Entre-os-Rios, fogos de 2017 e de 2024 e tempestade Kristin, é tempo de responsabilizar a classe política do país pela falta de planeamento estratégico e coordenação de meios e apelar a uma nova «ordem». Sim, porque, afinal, o que funcionou melhor nesta tragédia foi a ajuda dos vizinhos, dos voluntários e das organizações não-governamentais.
É preciso responsabilizar os partidos por, afinal, só dizerem mal dos governos mas não se prepararem, quando na oposição, para virem a ser governantes. Não há escolas de formação política nem administrativa nem organizacional dentro dos partidos.
É preciso responsabilizar os partidos por, afinal, 25 anos depois de eu ter pedido um fundo de calamidade, aqui neste jornal, com um por cento do PIB, por ano, nada ter sido feito e só agora ele ter sido reclamado, e pelo Presidente da República, com efeitos prováveis na dívida pública e na rácio do PIB.
O que esteve mal nesta tragédia não foi a intempérie porque as intempéries não podem ser impedidas, pelo menos por enquanto. O que esteve mal foi a falta de planeamento e cuidado na resolução das lacunas que nos expõem tão cruelmente aos fatalismos.
Onde está o cuidado na escolha dos terrenos para construção e na prevenção de cheias? Onde está a prevenção da segurança na construção de casas e de estradas. Onde está o cuidado com a drenagem das águas, seja em estradas, seja em ruas seja em casas? Onde está o treino e o planeamento da atuação dos operacionais nesta tragédia? Como é admissível que as forças armadas só tenham sido chamadas oito dias depois das ocorrências?
Temo que passado o calor do sofrimento causado por estas cheias, tudo volte ao ram-ram de Portugal e o passa-culpas volte aos ecrãs das televisões. Quem observa de fora dirá com comiseração: estes portugueses são mesmo desorganizados e pouco previdentes, mas a provisão querem-na sempre e de graça!

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