“A competência, ou se tem ou não se tem"
Helena Lapa é presidente da Câmara de Sabrosa, e a primeira a assumir o cargo no distrito de Vila Real.
Mensageiro de Bragança: Como foi assumir os destinos da autarquia?
Helena Lapa: Foi um sentimento muito especial. E uma responsabilidade muito grande. O facto de ter sido eleita acarreta muita responsabilidade e compromisso. A isto, à data, juntou-se o facto de ter sido a primeira mulher eleita presidente de uma Câmara Municipal no distrito de Vila Real. Sabia que ia ter todos os “holofotes” em mim, por estas razões, por ser o primeiro mandato, e porque, socialmente, no nosso território, era “estranho”, e olhado com alguma desconfiança por alguns, ter uma mulher a liderar os destinos da autarquia. Felizmente, em contexto de trabalho, não senti essa desconfiança. Nem internamente, na equipa que lidero, nem nos funcionários. Sempre senti um respeito e um comprometimento muito grande por parte destes para a concretização do trabalho que estamos a desenvolver e precisamos fazer.
Fui também muito bem acolhida pelos colegas autarcas, que me encararam sempre com o maior enquadramento e respeito.
Atualmente o distrito tem mais mulheres presidentes de câmara, mas, no princípio, sendo a única, isso não alterou, em nada, o trabalho que havia a fazer, e a forma como foi feito e articulado com todos. Independentemente de se ser homem ou mulher, partilhamos muitos dos problemas de um território que, em muitas coisas, é comum, e isso é que é mesmo importante. Isso, e a competência para a sua resolução. E competência, ou se tem ou não se tem, independentemente de ser homem ou mulher.
MB.: Que constrangimentos sentiu?
HL.: No início, porque havia alguma desconfiança por parte de alguns, ouvia alguns comentários “machistas”. Que rapidamente deixaram de se ouvir. Naturalmente a minha forma de ser e o trabalho que começamos a fazer se impôs a essa desconfiança de alguns. Não sendo isto, os constrangimentos que senti e sinto são aqueles que naturalmente alguém que está no desempenho do cargo sente, independentemente do seu género. Principalmente o início do primeiro mandato foi um período muito exigente de governação local. Não tínhamos maioria no Executivo e Assembleia Municipal e isto criou muitos constrangimentos à governação. Tive de saber estabelecer pontes e trabalhar afincadamente para ultrapassar esses problemas. Felizmente, esses problemas foram debelados e, estamos a desenvolver no concelho uma estratégia de desenvolvimento que consideramos fundamental para termos, a cada dia, um concelho mais feliz e mais capaz de dar resposta às necessidades dos munícipes.
MB.: Que qualidades pode aportar uma mulher a um cargo autárquico relativamente a um homem?
HL.: Acima de tudo, sensibilidade para determinadas temáticas, que faz com que determinados problemas sejam geridos de forma diferente do que “era habitual”. Naturalmente, homens e mulheres têm formas diferentes de ver, ser e estar, no mundo e na sociedade, e isso aporta uma visão mais transversal, que muitas vezes resulta em soluções devidamente adequadas. A proximidade às pessoas faz a diferença.
MB.: O que é preciso para haver mais mulheres na Política?
HL.: As mulheres quererem estar na política, em primeiro lugar! E liderar pelo exemplo é fundamental. Ser um exemplo para outras mulheres e para as gerações mais novas. Desta forma, estamos a mostrar-lhes de que é possível seguirem esta carreira, ou sonho, se o tiverem. E é fundamental continuarmos a desconstruir mitos sociais, de género e discursos radicais que, cada vez mais, tentam que se regrida no caminho da igualdade. Mas é preciso também darmos, ou criarmos, mais oportunidades a outras mulheres para estarem na política e demonstrarem a sua apetência e competência. Ainda há um caminho longo a percorrer.
