A arquitectura transmontana a gostar dela própria – A aldeia dos 60 minutos
A relação tempo-espaço tem uma longa tradição na história da arquitectura. A rede de estradas antigas, que está na base do território europeu como o conhecemos hoje, foi pensada em função do tempo que se demorava a chegar de um local ao outro, para que o serviço público de correio e transporte pudesse ser o mais eficiente possível - as estações de muda e descanso, pontos de paragem obrigatória aos viandantes, desempenhavam um papel fundamental à eficiência de todo o sistema de circulação do Cursus Publicus. No contexto rural transmontano, a extensão do termo das aldeias foi ditada pelo tempo que, do casario, cada lavrador demorava a chegar aos seus campos e que seria, no máximo, de 60 minutos - a pé, de burro ou com carro de bois. A própria dimensão de uma parcela de terra que cada homem deveria herdar para cultivar, foi determinada pelo rendimento de uma junta de bois numa jornada de trabalho, como referido em artigo anterior.
À semelhança da apologia de proximidade e diversidade, em que os residentes podem obter tudo o que necessitam no espaço a 15 minutos de distância da sua residência, a pé, de bicicleta ou de transporte público, se realmente queremos ter gente nas nossas aldeias no futuro, talvez devamos considerar a possibilidade de adaptar o conceito tradicional de tempo, ao ordenamento actual do território transmontano, conjugando as necessidades de deslocação da população residente em meio rural, que já não se resumem aos limites administrativos das aldeias ou vilas, com a tecnologia disponível nos dias de hoje para as actividades económicas associadas à região, com as formas de trabalho, muito diferentes das que havia há cem anos, e com a possibilidade de muitos dos serviços estarem à distância de uma aplicação no telemóvel ou computador.
O declínio do nosso espaço rural está associado à baixa densidade populacional, à falta de massa crítica para serviços e infraestruturas, a menor taxa de criação de negócios, a menos empregos, e à emigração (envelhecimento da população). Para inverter a tendência, o caminho facilitado pelas tecnologias digitais (que são a infraestrutura actual ao serviço da comunidade e da coesão territorial), será fundamental. Esta ideia está ancorada no conceito de ‘aldeias inteligentes’ - comunidades rurais que desenvolvem e utilizam soluções inovadoras para tirar partido dos seus pontos fortes e oportunidades, de forma participativa. O desafio passa por ter uma visão holística do território (pensar além da própria aldeia), definir a escala e critérios de actuação, e trabalhar em rede, tendo como objecto central o contexto local de cada comunidade.
É possível que o modelo encontrado e desenvolvido ao longo de dois mil anos esteja obsoleto. Deveremos então começar por (re)definir o modo de ocupação do território, baseado no contexto existente, que contribua para nos adaptarmos no futuro. A aldeia dos 60 minutos não é a aldeia que temos. É a aldeia que já tivemos e, porventura, aquela que deveríamos voltar a ter. Falta encontrar a melhor forma de lá chegarmo
